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It: A Coisa - Capítulo 2 | Crítica



Você irá flutuar também.



E aí, Clube dos Otários! (Peço desculpas pela referência).

Tudo bem com vocês? Espero que sim.

Quem me conhece sabe que It, A Coisa, livro publicado por Stephen King em 1981 é um dos meus favoritos da vida. Pennywise é um dos personagens que habitam o imaginário coletivo e é uma das referências mais clássicas para a representar o medo. Em 2017, fomos presentados com o capítulo 1 dessa história e agora em 2019 chegamos a conclusão de uma das histórias mais incríveis e assustadoras já criadas. It: A Coisa - Capítulo 2 chega às telonas de todo o mundo apresentando o confronto final entre o terrível palhaço e o Clube dos Otários formados por Bill, Beverly, Mike, Ben, Stan, Richie e Eddie 27 anos após eventos contados durante o primeiro capítulo. E aí, será que valeu a pena? É o que você confere agora! 


Título Original: It: Chapter Two
Data de estreia: 5 de setembro de 2019
Gênero: Terror
Distribuidora: Warner Bros
Direção e desenvolvimento: Andy Muschietti
Duração: 2h50min
Sinopse: Vinte e sete anos depois dos eventos que chocaram os adolescentes que faziam parte do Clube dos Perdedores, os amigos realizam uma reunião. No entanto, o reencontro se torna uma verdadeira e sangrenta batalha quando Pennywise, o palhaço, retorna.



"Ninguém que morre em Derry morre de verdade." Essa frase resume exatamente It - Capítulo 2. Após enfrentarem Pennywise pela primeira vez, no verão de 1989, o Clube dos Otários faz uma promessa de retornar a cidade caso o palhaço retorne. 27 anos se passam, os personagens crescem e cada um deles possuem suas vidas, seus empregos e seus casamentos, quando Mike, o único membro do clube que se manteve em Derry durante todos esses anos liga para o restante dos amigos dizendo que está acontecendo novamente e que eles precisam retomar à cidade natal para darem um fim a Pennywise que de fato não havia morrido durante o primeiro confronto. Derry possui uma espécie de "aura mágica" em que os personagens que saíram da cidade não se lembram de nada que aconteceu no terrível verão de 89. O único que se lembra de tudo  é Mike que, como mencionei acima, nunca saiu da cidade e se tornou uma espécie de estudioso sobre A Coisa. Ao receberem o misterioso telefonema de Mike, seus antigos amigos começam a se lembrar sobre o que aconteceu na cidade, mas ainda precisam encontrar uma forma de se livrarem de vez dessa ameaça.


Não podíamos esperar algo diferente de uma adaptação de Stephen King. O ponto alto de It, em minha opinião, é a construção dos personagens e isso é um ponto super forte para adaptação, que soube desenvolver muito bem as histórias particulares de cada um dos membros e, mesmo que eles não se lembrem do que aconteceu, os eventos de 1989 moldaram totalmente suas vidas a partir de então. Todos os personagens apresentaram uma evolução em sua vida, mas nunca conseguiram se desligar de Derry de fato. Ao retornarem a cidade para lidarem mais uma vez com a terrível criatura, eles começam a se lembrar de tudo que aconteceu e fazerem conexões com suas vidas nos dias atuais. Um outro ponto forte para o filme foi para a escolha do elenco da versão adulta e que realmente se parecem com os adolescentes do primeiro filme. O grande acerto de It é despertar a nostalgia no telespectador através de flashbacks frequentes com lembranças de eventos do filme anterior ou até mesmo a inserção de novos detalhes, completando lacunas deixados pelo primeiro longa e dando mais peso para a produção e narrativa. Esse recurso é utilizado em vários momentos do filme e serviram pra deixar bem claro para os telespectadores o quanto o verão de 1989 marcou a vida de cada um deles. Eddie Kapsbrak, por exemplo, que sofria os abusos de uma mãe super controlada e autoritária, se casa com uma mulher bem próxima do que sua mãe foi, agora já falecida. Beverly Marsh também se casou com um marido controlador e violento, reflexo da relação que a mesma possuía com seu pai. Os detalhes são sutis e podem passar despercebidos, mas dá pra ter uma boa noção da importância de Derry na construção dos personagens. 



Stephen King aparece! Eu, como amante das obras de terror, tenho em King um dos meus autores favoritos e foi muito emocionante vê-lo fazendo uma pontinha no filme à lá Stan Lee. O autor vem prestigiar uma de suas histórias mais conhecidas e seu personagem é bem divertido e irreverente. King, apesar de não ter muitas falas, traz um pouco de descontração para a história, principalmente com as inúmeras alfinetadas com relação aos seus livros, cujos finais nem sempre agradam os leitores. Frases como "O livro é bom, mas não gosto do final", são repetidas diversas vezes ao longo do filme e foi realmente legal a produção ter brincado com algo marcante na carreira do escritor. Vale lembrar que o próprio final de It é discutido até hoje e cercado de polêmicas com relação a uma cena em específico (sim, essa mesma que você pensou). Pensando pelo ponto de vista de King, deve ser algo muito legal poder testemunhar uma história sua ganhar o mundo a ponto de poder participar de sua adaptação cinematográfica. Mais uma vez, o filme provocando esse lado emocional em quem assistiu. O autor sempre foi um visionário com relação a criação de histórias. Muitas temáticas que hoje em dia são amplamente exploradas e discutidas, King já inseria em seus livros muito antes mesmo de tais discussões serem iniciadas. Em It, livro que, vale a pena lembrar, foi publicado no início da década de 80 retrata muitos conceitos sobre homofobia, violência doméstica, estupro, racismo, suicídio, dentre outros. Os temas foram abordados ao longo do primeiro filme e continuaram a ganhar destaque na nova produção, o que soa algo muito positivo e interessante. Ainda que histórias de terror sirvam para assustar, ainda são histórias que desempenham forte papel social e achei muito bacana a produção colocar nos filmes, ainda mais nos dias atuais em que se é necessário cada vez mais falar sobre os assuntos. 



No entanto, as coisas boas do filme terminam aí. 

Em questões de adaptação com relação ao livro, It - Capítulo 2 deixa a desejar. Vale a pena ressaltar que o primeiro longa também já não havia sido muito fiel ao livro, mas na sequência, temos várias modificações de elementos presentes no livro e a inserção de diversos outros. A produção de narrativa do longa passa por altos e baixos, com períodos em que a história fica interessante e em outros momentos você se sente assistindo a mesma cena em diversos momentos. O filme é repetitivo e cansativo, principalmente na parte em que os membros do Clube precisam reunir alguns objetos que marcaram a sua adolescência durante o verão de 89 para realizarem um ritual para enfim derrotar Pennywise. Essas cenas são interminááááveis e monótonas, o único destaque foram as alucinações causadas pela Coisa para confundir e amedrontar os personagens. Também senti que em alguns momentos os eventos foram acelerados e passados apenas de maneira superficial, o que deixou lacunas na narrativa e desentendimento nos telespectadores. A cena que explica a origem de Pennywise (algo tão marcante no livro que recebe umas boas 50 páginas) se passou em menos de 5 minutos. A cena, esteticamente bonita é muito agradável e algo diferente, no entanto, pouco se explica a respeito da origem dele e muito menos sobre como o grupo poderá derrotá-lo. O mesmo funciona para os demais elementos do filme. É tudo passado muito rapidamente, enquanto a produção opta por se estender em cenas que não acrescentam nada de relevante para a história, além de forçar algumas situações bem esquisitas. O que não salva o filme de ser um fiasco total é a boa interpretação dos atores, principalmente Bill Skarsgård que dá vida ao macabro Pennywise. Ainda que ele tenha aparecido bem pouco no longa - pois é, um filme de palhaço sem o palhaço - suas cenas são magníficas e é perceptível o talento do ator.
Iremos falar sobre o final do longa em uma parte em específica dessa resenha, no entanto, It foi marcado por uma sucessão de erros que, em uma avaliação final, o considero como um dos filmes mais aleatórios e avulsos que já assisti. O exagero de piadas e cenas engraçadas no filme cortam totalmente o ritmo de imersão e terror das cenas e eu sinceramente não entendi a escolha desse recurso em um filme de terror. Tudo bem, sabemos que os personagens são amigos de infância e são carismáticos entre si, no entanto, ter o Richie fazendo piadinha o tempo todo não dá. O problema é que se fossem só as piadinhas ainda dava para engolir, mas o humor foi inserido até nas cenas mais tensas do longa. O filme começa a criar o sentimento de apreensão e você sente que algo vai acontecer, no entanto, esse clima todo é quebrado por alguma palhaçada. As cenas são toscas e de gosto duvidoso, beirando ao ridículo. Eu assisti ao filme em uma sala lotada em que as pessoas riram o tempo inteiro. Se as pessoas acham um filme de terror engraçado, tem algo de errado aí. 
Já que falamos sobre cenas toscas, os efeitos especiais do filme não fizeram jus ao primeiro longa e são bem inferiores, quando comparamos com a computação gráfica do primeiro filme. O palhaço e as outras formas que A Coisa se transforma para amedrontar e afugentar o grupo liderado por Bill são deformadas, estranhas e sem qualquer traço que pudesse ser assustador. A sensação que tive é de que estava assistindo a um filme de sátiras ao estilo de Todo Mundo em Pânico e afins. O filme possui ótimas cenas e que seriam realmente impactantes, no entanto, o resultado final foram cenas avulsas, pouco produzidas e de pouco apelo visual. Lá pra metade do filme eu já tinha aceitado que o filme seria bem inferior com relação ao primeiro, apesar das coisas boas que pontuei um pouco mais acima, mas nada que eu havia assistido até então iria me preparar para a batalha final contra o Pennywise.

Eu realmente quis sair da sala, tamanha vergonha alheia. Como citei, os efeitos gráficos foram bem aquém do esperado. Some isso ao fato de que a história não foi bem explicada foram dados argumentos muito rasos para o público com relação ao tal ritual e como de fato iriam derrotar o palhaço. Já sabia que o final havia sido modificado com relação ao livro, pois em momento algum do filme foi explicado sobre Maturin, personagem importantíssimo na obra e que segundo King, foi a responsável pela criação do universo e inimiga da Coisa. Após o grupo conseguir revelar a verdadeira forma do Pennywise (tosquíssima, diga-se de passagem), se dá início a uma das cenas mais absurdas que já vi em minha vida. A Coisa se alimenta do medo da vítima e, obviamente, se você não sente medo dela, você pode destruí-la. Eu não irei revelar o que fizeram no filme pois não estou aqui pra dar spoilers, mas já dá pra ter uma noção sobre a forma que o grupo encontrou de derrotar Pennywise. Enquanto escrevia a resenha, me veio novamente a sensação de vergonha alheia de algo tão bobo ter sido feito. E mais uma vez, vale lembrar, todas as cenas com um tom humorístico elevado totalmente desnecessário e aleatório. Por que?!

Em suma, se você busca uma história de terror assustadora e envolvente, esse filme definitivamente não é escolhido para você. Infelizmente, a sequência não foi capaz de sustentar a imponência da primeira obra e o resultado é um filme avulso e problemático, se destoando totalmente da incrível história do palhaço assassino. Recomendo que você faça a leitura do livro, pois, ainda que o final não seja lá muito bom - Desculpa, King, mas não dá! - a história é muito imersiva e interessante. O filme funciona muito mais como um longa reflexivo que se apoia na nostalgia para a criação de uma história do que o terror em si. Fico triste pois era um filme com um ótimo enredo, grandes nomes do cinema e uma narrativa de peso que colocaria qualquer um dos filmes do gênero lançados nos últimos anos no chinelo tenha se tornado apenas uma piadinha sem graça e fora do tom. 


Nota: 2,5/5,0 





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