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Doutor Sono | Livro x Filme


Vamos revisitar o Overlook?


Olá!

Tudo bem com vocês? Espero que sim!

Não faz muito tempo que trouxe para vocês a resenha de um dos maiores clássicos de Stephen King, O Iluminado. Muitos não sabem (e agora irão saber) que em 2013 o autor publicou a sua continuação intitulada Doutor Sono. Sua adaptação cinematográfica estreou recentemente nos cinemas de todo o Brasil e hoje iremos discutir um pouquinho sobre a obra literária e também do longa, suas principais diferenças e os pontos positivos de cada um.

Vamos começar?


Título Original: Doctor Sleep
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Gênero: Terror, Suspense, Ficção paranormal
Data de Publicação: 24 de setembro de 2013
Número de Páginas: 531 páginas
Sinopse: Mais de trinta anos depois, Stephen King revela a seus leitores o que aconteceu a Danny Torrance, o garoto no centro de O iluminado, depois de sua terrível experiência no Overlook Hotel. Em Doutor Sono, King dá continuidade a essa história, contando a vida de Dan, agora um homem de meia-idade, e Abra Stone, uma menina de doze anos com um grande poder. Assombrado pelos habitantes do Overlook Hotel, onde passou um ano terrível da infância, Dan ficou à deriva por décadas, desesperado para se livrar do legado de alcoolismo e violência do pai. Por fim, ele se instala em uma cidade de New Hampshire, onde encontra abrigo em uma comunidade do Alcoólicos Anônimos que o apoia e um emprego em uma casa de repouso, onde seu poder remanescente da iluminação fornece o conforto final para aqueles que estão morrendo. Ajudado por um gato que prevê a morte dos pacientes, ele se torna o Doutor Sono. Então Dan conhece Abra Stone, uma menina com um dom espetacular, a iluminação mais forte que já se viu. Ela desperta os demônios de seu passado e Dan se vê envolvido em uma batalha pela alma e sobrevivência dela. 


Após os terríveis eventos testemunhados por Danny Torrence no período em que esteve hospedado no Overlook, a vida do jovem nunca mais foi a mesma. Agora, 30 após os traumas vividos, Danny é um alcoólatra que pula de cama em cama e que não se mantém empregado por muito tempo. Ele geralmente arruma trabalho em clínicas e hospícios locais, mas quando seus chefes descobrem a respeito de seu problemas com a bebida, logo o demitem. Danny já é adulto, mas ainda se encontra atormentado por visões, alucinações e assombrações dos fantasmas do Overlook, como a mulher do quarto 237. Após um evento traumático em mais uma de suas noites de bebedeiras, Danny decide se mudar mais uma vez até a cidade de New Hampshire onde arranja emprego em um parque local como servente. Danny abandona a bebida e se mantém sóbrio, pois graças aos conselhos de seu velho amigo e antigo cozinheiro do Overlook, Danny consegue esconder seu dom especial chamado de iluminação e se vê livre de tais alucinações, no entanto começa a "receber" mensagens de uma garotinha de 12 anos chamada Abra Stone, que, pelo que Danny percebe, possui o mesmo dom que ele. A história da menina é envolta em mistérios e segredos e Abra nasceu em 2001, no momento exato em que os aviões batiam nas torres do World Trade Center nos atendados terroristas. Ao mesmo tempo, as visões de uma mulher com uma cartola parecem avisos de um perigo eminente e tudo indica que ela está atrás de sua mais nova amiga. Aos poucos Danny descobre que a jovem é muito poderosa e possui um poder muito incomum que atrai a atenção de Rose Cartola e de seu grupo chamado de "Verdadeiro Nó" que viaja pelas estradas e rodovias dos EUA em busca de Iluminados para "coletarem" seu dom, chamado de Névoa, que proporciona juventude e vitalidade para o grupo. Danny e Abra entram então em uma corrida contra o tempo para se salvarem, enquanto Danny precisa mais uma vez enfrentar seus traumas vividos no Overlook e por um ponto final em sua história, assim como conseguir salvar Abra das garras de Rose.

Não, querido. Talvez você possa guardar as coisas do Overlook trancadas em cofres, mas não as recordações. Essas nunca. Elas são os verdadeiros fantasmas. 

Em um primeiro momento, a sinopse que o livro nos entrega é de uma história dinâmica e complexa, uma verdadeira corrida contra o tempo. Ainda que seja uma continuação de uma de suas maiores obras de terror, Doutor Sono não se foca inteiramente no gênero para a construção de sua história, apostando em elementos de suspense. Eu achei uma decisão interessante, no entanto, eu tive muitos problemas com a narrativa e me senti em uma montanha russa de amor e ódio. A história é parada e muito descritiva, duas características comuns dos livros do King, mas em Doutor Sono ele exagera e você passa mais da metade do livro tentando entender o que está acontecendo e para onde a história está indo. Doutor Sono é repleto de cenas avulsas e que você se pergunta a atual relevância para o desenvolvido da narrativa e, por diversas vezes, não senti como se fosse uma continuação digna de O Iluminado, já que os livros possuem tons de terror e suspenses muito distintos. O livro enrola, enrola, enrola e eu não conseguia me adaptar aos personagens da trama, com exceção da vilã Rose, uma das mais bem construídas por King em suas obras. Ela com certeza entrou para o meu hall de personagens favoritos, assim como seu grupo, contudo, o mesmo não posso dizer a respeito da dupla protagonista que não me convence em absolutamente nada. Em minha opinião, não achei que os dois formaram uma boa dupla, inclusive achava a menina bem irritante e parada. Já as cenas em que Danny está sozinho são interessantes e mais uma vez King traz um ótimo aprofundamento psicológico em seus personagens, mostrando que, de uma forma ou outra, Danny nunca saiu do Overlook e os traumas moldam sua vida até hoje.



Falando diretamente sobre o grupo do Verdadeiro Nó, eu achei uma solução bem interessante e inusitada para a obra e acho que agregaram positivamente para a narrativa. Rose tem tudo que uma vilã precisa para ser amada e odiada pelos leitores e o seu núcleo se desenvolve sem a enrolação toda em que Danny e Abra são descritos. O livro lá pela metade (sim, você passa dos 50% de leitura) começa a engrenar e você finalmente entende a relação direta com O Iluminado, já que antes achava que era uma espécie de spin off. Para a leitura de Doutor Sono é recomendado que você leia o livro de 1975 pois há inúmeras referências e menções de cenas da primeira obra e que são importantes para o entendimento da narrativa de Doutor Sono. 

- Fique longe da mulher com a cartola. Ela é a Rainha Bruxa do Castelo do Inferno.
- Pouco me importa - disse Dan.
- Brinque com ela, e ela vai comer você vivo. 

Já o final do livro é frenético e eu senti o King que estamos acostumados a amar. Doutor Sono explora totalmente a temática do Overlook, dando finalmente um final para todos os traumas de Danny em uma cena muito emocionante e que, acredito eu, todo fã de King amou, porém, preciso ser sincero em dizer que Doutor Sono é uma obra irregular e que mescla ótimos momentos com outros totalmente deslocados e estranhos, eu diria. O ponto mais fraco, em minha opinião, é o arco de desenvolvimento de Abra, mas acredito que foi justamente por não ter conseguido criar uma relação empática com a personagem.

Nota: 3,0 / 5,0 


O filme



Data de estreia: 7 de novembro de 2019
Gênero: Terror, Suspense
Direção: Mike Flanagan
Distribuidor: Warner Bros
Duração: 2h 32 min
Sinopse: Na infância, Danny Torrance conseguiu sobreviver a uma tentativa de homicídio por parte do pai, um escritor perturbado por espíritos malignos do Hotel Overlook. Danny cresceu e agora é um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, ele se estabelece em uma pequena cidade, onde consegue um emprego no hospital local. Mas a paz de Danny está com os dias contados a partir de quando cria um vínculo telepático com Abra, uma menina com poderes tão fortes quanto aqueles que bloqueia dentro de si.

Com a difícil missão nas mãos, Mike Flannagan (sim, você já ouviu esse nome recentemente devido ao sucesso da série de terror, a Maldição da Residência Hill), o diretor e sua equipe possuíam dois principais obstáculos: daptar uma obra de Stephen King e trazer uma história coesa e coerente que agradassem os fãs do livro, mas que também fossem de acordo com O Iluminado, filme dirigido por Stanley Kubrick na década de 80. A rixa do diretor com King é pesada e na época do lançamento do longa, o escritor não poupou palavras hostis para a adaptação que, segundo ele, não foi capaz de exprimir o verdadeiro horror que a família Torrence testemunhou durante sua estadia no Overlook.  Se me permitem uma opinião particular, o filme é um dos melhores do gênero e, ainda com as modificações - principalmente com relação ao final - gosto de ambas as obras, reconhecendo que cada uma é focada em um ponto específico da história. Não é necessário pesquisar muito para saber que ambas as obras se tornaram dois grandes sucessos do terror - cada uma em sua vertente - no entanto, existem inúmeras divergências entre elas que precisaram ser levadas em consideração por Mike para a adaptação de Doutor Sono e que dificultaram muito o trabalho do diretor.

Foto: Doctor Sleep | Reprodução Warner Bros


Todo leitor morre de medo quando um livro recebe sua adaptação para o cinema. Seja por descaracterização de personagens, quebras de roteiro e modificações incoerentes na estrutura da narrativa, é um verdadeiro filme de terror, ainda mais levando em consideração o péssimo ano de King e suas adaptações (Remake péssimo de Cemitério Maldito, o Vexame de It - Capítulo 2 e o filme esquisito de Campo do Medo).  Eu fui assistir o filme já meio com o pé atrás por conta desse péssimo background e também por todos os problemas que passei durante a leitura do livro.  Felizmente, Doutor Sono é muito bem adaptado e devo dizer que foi um dos poucos em que realmente me senti satisfeito nesse quesito. Mike soube exatamente trabalhar nos pontos fortes da narrativa e melhorar alguns pontos monótonos da narrativa e o resultado foi um filme longo, mas coeso e "conciliador", em que a obra sofreu algumas modificações para que pudesse acompanhar o longa de Kubrick, no entanto, não ficou devendo em nada para a obra literária, tendo tido alguns pontos que foram ainda melhores quando comparamos com o livro.

Foto: Doctor Sleep | Reprodução Warner Bros


Eu comentei acima que eu não consegui me afeiçoar com Danny e Abra, correto? No filme, a relação dos personagens é construído de maneira constante e linear em que o talento de Ewan Mcgregor e a jovem Kyliegh Curran rapidamente despertam o interesse do grande público. As inúmeras e intermináveis cenas de interação entre os dois foram reduzidas e trouxeram uma versão mais enxuta, mas ainda sim, muito coerentes para com a história que estava sendo contada. Ewan caiu como uma luva para viver Danny e ele soube explorar muito bem a carga emotiva do personagem que beira a perfeição e possui o mesmo peso e importância de sua versão escrita, sendo tão bem desenvolvido por King. Já com relação a icônica vilã Rose, a Cartola, minhas expectativas estavam nas alturas: Ela já havia sido a minha personagem favorita no livro e contava muito com a atuação de Rebecca Ferguson que foi escolhida para viver a temida mulher. Mais uma vez fui surpreendido com uma atuação ainda melhor do que esperava e a personagem rouba a cena com graça e ironia, duas marcas registradas na personagem. Zahn Mcclarnon que viveu Corvo, companheiro de Rose também se destaca, sendo sua versão no cinema mais bem representada que no livro. Doutor Sono, sem sombra de dúvidas, trouxe um elenco muito profissional e disposto a fazerem o filme dar certo. Até Abra, tão sem graça no livro foi interpretada com brilho e simpatia. Saí do cinema até gostando um pouquinho mais dela e pensando que talvez a implicância com a personagem no livro foi apenas algo da minha cabeça. 

O Iluminado foi uma obra (e ainda é) icônica que marcou e influenciou toda uma geração de diretores. O trabalho de Kubrik é claramente  uma inspiração para Mike que a todo custo tenta trazer o mesmo visual estético da obra de 1980, trazendo ainda mais essa sensação de continuação. Doutor Sono deixa de lado aberturas modernas e repletas de efeitos especiais para trazer uma cena muito comum das utilizada nos filmes da época, nos teletransportando automaticamente para o universo oitentista. Eu senti que ao longo dos 190 minutos de exibição, o longa era uma grande homenagem para Kubrick e por diversos momentos, Flannagan utiliza as mesmas paletas de cores e jogos de câmera para a criação dessa sensação de imersão que, devo ser sincero, funcionou muito. O projeto ambicioso trouxe o Overlook de volta em toda sua magnitude e foi lindo rever todos aqueles cômodos novamente, assim como as terríveis assombrações que ocupam o hotel. Aqui nesse ponto, a experiência de Mike fez toda a diferença e ele soube explorar muito bem o jogo de câmeras para criar sombras, aparições e vultos que muito se assemelharam às soluções adotadas em A Maldição da Residência Hill. Cenas icônicas como a aparição das gêmeas, a terível mulher na banheira e o elevador de sangue também foram inseridas no longa forçando ainda mais esse sentimento de nostalgia. O bar do hotel, o labirinto vivo e o banheiro em que Jack perseguira sua esposta tantos anos atrás também foram outros locais explorados em Doutor Sono.

Foto: Doctor Sleep | Reprodução Warner Bros


Jack Nicholson e Shelley Duvall que interpretaram Jack e Wendy Torrance, respectivamente não fizeram parte da continuação, no entanto, seus personagens desempenham uma forte função na história. Como Doutor Sono começa 1 ano após os eventos finais de O Iluminado, Mike optou por trazer atores bem parecidos para viver o casal e Alex Essoe foi escolhida para viver a mãe de Danny, enquanto Jack Torrence foi "trazido" de volta através de efeitos especiais e muita computação gráfica. A cena é curta mas impactante e muito significativa para Danny que consegue encerrar de uma vez por toda esse ciclo que vive desde sua primeira estadia no Hotel.

Apesar do ótimo sentimento de nostalgia que o filme proporciona, ainda sim, ele não convence como uma obra de terror e não o considero como um longa que será tão icônico daqui um tempo tal qual O Iluminado. O filme causa uns sustinhos, mas são bem poucos e somente lá pro final do longa que aposta sempre no suspense para a criação dessa atmosfera, mas no geral, Doutor Sono foi uma ótima experiência e finalmente posso dizer que um longa consegue se equiparar ao livro do Rei. Ainda que fossem necessárias realizar modificações para que as obra pudesse conversar tanto com o filme como o livro de O Iluninado, o longa foi muito capaz de se sustentar e não fica devendo em nada para seu irmão escrito.

Foto: Doctor Sleep | Reprodução Warner Bros


Não irão se decepecionar.


Nota: 4,5 / 5,0 


Espero que tenham gostado da resenha de hoje e não se esqueçam de compartilharem com seus amigos e também nos seguirem em todas nossas redes sociais.

Nos vemos na próxima semana para mais uma resenha.

Juízo, hein?

Até lá.



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