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Us | Crítica


Todos nós somos loucos aqui embaixo.


Oi.

Tudo bem com vocês? 

Falta muito pouco para a realização da 92º cerimônia de entrega do Oscar, prêmio máximo do cinema mundial e não irei comentar a respeito das polêmicas envolvendo os indicados desse ano pois acredito que muito já se discutiu e debateu sobre a temática (eu tampouco sou um crítico especializado). Apesar dos pesares, uma coisa não podemos deixar de lado: O filme Us, do diretor Jordan Peele era um dos grandes cotados a concorrer algumas estatuetas, dentre elas o de melhor atriz para Lupita Nyong'o, que vive a protagonista da obra. Ao contrário do que aconteceu com Corra! (Também dirigido por Peele e vencedor de 4 prêmios no ano de 2018), Us não foi indicado a nenhuma categoria. O longa foi lançado em 22 de março de 2019 e eu só tive a oportunidade de assisti-lo agora, por isso a resenha está saindo fora do timing de produção e divulgação do filme, mas aproveitei toda a polêmica levantada com a questão das não indicações da obra para o Oscar e hoje vim contar um pouquinho pra vocês sobre a experiência que foi assistir Us e porque eu, Gabriel, acredito que o longa merecia sim disputar  alguns prêmios ou, ao menos, possuir mais reconhecimento por parte da academia e crítica especializada.

Como alguns de vocês sabem o filme possui diversas camadas e discussões, apostando em uma narrativa difusa e tortuosa em que as interpretações são totalmente particulares e individuais, porém, tentei ao máximo me abster dessas explicações e podem ficar tranquilos que o texto não possui nenhum grande spoiler, além das informações que podemos obter em trailers, teasers e imagens de divulgação. :)

Vamos lá? 


Data de Estreia: 22 de março de 2019
Gênero: Suspense, Drama, Ficção Científica
Direção: Jordan Peele
Distribuidor: Universal Studios
Sinopse: Adelaide e Gabe levam a família para passar um fim de semana na praia e descansar. Eles começam a aproveitar o ensolarado local, mas a chegada de um grupo misterioso muda tudo e a família se torna refém de seres com aparências iguais às suas.



Us entra para o seleto nicho do cinema em que não existe meio termo com relação a gostar ou não: Ou você ama, ou você odeia. Assim como Mãe!, Bacurau, Mindsomar, e o já citado Corra!, dentre outros, tais produções investem pesado em narrativas que se estendem por múltiplas camadas, apresentando diversos significados, nuances, questionamentos e críticas em que muitas vezes não estão situadas na "superfície" do filme, ou seja, as mesmas só se tornam visíveis após uma inspeção mais séria e atenta dos elementos particulares, objetos, personagens e referências. Levando Corra em considerão (lembrando que também foi dirigido por Jordan), o longa possui um significado que pode ser facilmente absorvido retratando principalmente o rascismo. A narrativa agradou público, crítica e a Academia, ganhando 4 prêmios em 2018, incluindo os de Melhor Roteiro Original, Melhor Ator, Filme e Diretor.

Com tanta comoção, popularidade e carta livre para explorar a temática que quisesse, Jordan mergulha em seu projeto mais ambicioso até então: Us chegou cercado de expectativas e arrecadou mais de 250 milhões de dólares em sua semana de estreia, atraindo a atenção de todos, gerando grande publicidade e promoção para a obra. Após se separar de seus pais, Adelaide sofre um grande trauma ao entrar na casa dos espelhos do parque de diversões em que estava com sua família. Anos depois, a personagem ainda não consegue se livrar dos traumas da fatídica noite e agora, já uma mulher adulta, leva toda sua família para passar um final de semana relaxante na praia. As coisas estão indo muito bem até que a casa é invadida por um grupo muito peculiar, trajando roupas vermelhas e tesouras. Como se a situação já não fosse caótica o suficiente, os invasores possuem uma excêntrica característica: Eles são exatamente como Adelaide, seu marido e seus filhos, como se fossem cópias exatas, suas sombras. Sem a noção do que é realidade, a família testemunha um verdadeiro show de horrores ao serem obrigados a ficarem separados e enfrentar cada um sua "cópia".



Us funciona muito como uma colcha de retalhos em que o mais sutil detalhe faz a diferença para o entendimento da história. Num primeiro momento eu senti como se o filme fosse aleatório e as cenas sem muito significados, como por exemplo, o trauma vivido por Adelaide na casa dos espelhos,a presença de coelhos, as mensagens bíblicas como Jeremias 11:11, as falas sobre teorias da conspiração e a inserção do movimento publicitário Hands Across America, realizada nos EUA na década de 80 contra a fome mundial. São todas cenas que aparentemente não possuem nenhuma relação com a trama principal, mas a medida que o longa avança, algumas peças vão se encaixando; outras, no entanto, só são reveladas nos momentos finais, o que pode deixar o telespectador um tanto perdido em meio a tantos elementos, contudo, Us é uma experiência sensorial e metafórica, em que a imersão é o elemento chave para conquistar quem assiste e fazer o filme funcionar.

O título em inglês significa Nós,  no entanto, após o entendimento da história, o mesmo pode ser interpretado de outra forma como a abreviação de United States, uma vez que o longa possui duras críticas ao país e ao estilo de vida de seus habitantes. A grande brincadeira já é apresentar esse conceito de dualidade logo em seu título, porém, esse elemento está intrínseco em quase todas as cenas em que são apresentados diversos elementos que corroboram essa teoria já confirmada pelo próprio diretor: O uso das tesouras, os possíveis clones, as sombras... São tantos elementos que provavelmente deixei alguns de fora. Eu me senti assistindo uma obra artística em que tudo foi pensado em estar em cena como os elementos de um quadro ou uma peça de teatro. O filme não possui efeitos especiais extraordinários ou cenas intermináveis de computação gráfica; seu brilho está presente nas expressões faciais e corporais dos personagens que funcionam como uma dança, milimetricamente calculados a fim de passar uma mensagem maior. Já que mencionei as expressividade dos personagens, principalmente a maneira com que os "clones" se movimentam e falam, não poderia fazer uma crítica do filme sem mencionar ao bélissimo trabalho interpretativo de Lupita Nyong'o. A atriz definitivamente é o destaque ao interpretar dois personagens iguais e ao mesmo tempo fazê-los serem totalmente diferentes e distintos, com suas identidades visuais tão bem demarcadas. O nível de profundidade da personagem é absurdo e realmente é muito questionável o Oscar simplesmente ter ignorado sua adaptação. Falando em Oscar, acredito que facilmente o filme poderia ter concorrido em quesitos técnicos, principalmente os que envolvem direção, pois novamente digo, o filme não comete um único deslize quando se avalia o trabalho da pré e pós produção, principalmente com o excelente trabalho de edição das sombras e reflexos.



Gostaria de destacar uma das cenas finais do filme (a imagem que você confere acima) em que Adelaide confronta sua sombra em uma sequência IMPECÁVEL, uma dança muito bem executada e dirigida. Eu fiquei arrepiado e quase bati palmas de tão bonita e emblemática que foi. Para finalizarmos essa etapa em que estamos discutindo a dualidade, Us traz ótimos jogos de câmera que favorecem sombras, reflexos, dentre outros, reforçando ainda mais esse conceito criado para o filme. Nesse ponto fica visível o profissionalismo do diretor que coloca os detalhes mais sutis nas cenas e o sentimento que tive é de que os personagens estavam sendo observados o tempo todo por seus clones e suas sombras.

Se por um lado o filme é impecável nos quesitos técnicos, o mesmo não posso dizer para o roteiro. Ainda que todas as explicações sejam dadas e que as cenas são explicadas e inseridas no contexto geral em que o filme se encaixa (eu realmente tentei escrever essa crítica sem spoilers), eu senti em alguns momentos que a narrativa foi se tornando cansativa e repetitiva, as quais me fizeram perder um pouco do interesse lá na metade do filme. Não assistam esperando um grande blockbuster ao estilo de Hush - A morte ouve, Temos Vagas e afins, pois como disse, Us é uma experiência distinta e não se enquadra em nenhuma categoria existente. É muito comum em filmes de invasores e perseguições a presença de cenas de impacto e muito susto (ainda que nos momentos finais eles tragam a revelação final, o grande plot twist da história - e que foi muito bom, diga-se de passagem), no entanto, Us explora outras vertentes e possui uma proposta muito diferente em que, ao meu ver, se propôs a discutir a maneira com que o mesmo indivíduo pode se tornar uma pessoa diferente baseado na maneira com que foi criado e cresceu.



O grande diferencial de filmes assim é que seu significado é interpretativo e figurado: O que funciona pra mim de um jeito, funciona diferente para você e essa talvez seja o grande questionamento de dualidade tão explorado no filme. Apesar de ser uma obra confusa, o filme acerta em brincar com esses conceitos de camadas e que, possivelmente, nunca haverá uma explicação concreta.


Nota: 4,0/5,0


E você? O que acha de Us? Conta aqui pra mim nos comentários. Deixei de falar algo, existe alguma coisa que interpretou de maneira diferente? Vamos discutir e debater. Não se esqueça de compartilhar com seus amigos e de nos seguirem em todas as redes sociais.

Nos vemos em breve.

Tchau!

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