Banner-Site-fw-fw

Quando Ela Acordou | Resenha


Acreditamos que só Deus pode dar a vida e apenas Ele tem o direito de tirá-la.


Olá, queridos!

Tudo bem com vocês?

Hoje escolhi para falar um pouquinho com vocês sobre o surpreendente Quando Ela Acordou, da Hillary Jordan. Eu sei que ele não é muito conhecido em nosso universo literário, mas eu prometo que o texto de hoje vai valer a pena. A obra é uma distopia ao estilo do conhecido O Conto da Aia e traz fortes debates religiosos acerca da relação da mulher com sociedade. Como cite, ele não é muito conhecido - eu tampouco o conhecia - e, primeiramente, gostaria de agradecer ao meu amigo "livreiro" Rafael por ter me indicado essa obra. Fiquei muito feliz por tê-la lido e foi uma das minhas melhores leituras do ano passado. 


Vamos começar?


Título Original: When She Woke
Autor: Hillary Jordan
Editora: Bertrand Brasil
Gênero: Distopia, Ficção, Drama
Número de Páginas: 434
Sinopse: Quando ela acordou é também uma fábula oportuna sobre uma mulher estigmatizada que luta para navegar na América de um futuro não tão distante, em que a fronteira entre igreja e estado foi extirpada e os criminosos condenados não são mais presos e reabilitados, mas cromados e novamente soltos no meio da população, para sobreviverem como puderem. O livro apresenta uma metáfora, por exemplo, dos judeus europeus durante o domínio nazista ou dos negros americanos na década de 60. A transformação de um ser humano – ou transfiguração, como utilizado no livro – é um tema importante tratado por Hillary Jordan na história. As dificuldades que surgem ao longo desse processo fazem com que, segundo a autora, as pessoas enfrentem o desconhecido, a vida, com mais coragem. Uma mistura de temas polêmicos, como a separação entre religião e estado, aborto e justiça com uma história cativante e uma heroína fantástica. 

Apesar de possuir - em sua maioria - críticas positivas e de ter sido considerado como um dos grandes clássicos do século XXI, Quando Ela Acordou, escrito por Hillary Jordan não chegou a se tornar uma febre mundial e, aqui no Brasil, o livro vendeu uma quantidade tímida de cópias. Quando comparamos com o gigante O Conto da Aia que tem se tornado cada vez mais popular graças a sua adaptação televisiva pelo serviço de streaming Hulu, devo começar essa resenha dizendo que Quando Ela Acordou merecia o mesmo hype que a distopia escrita por Atwood. Lançado em 2013 e trazido para terras nacionais pela editora Bertrand Brasil, o livro  possui uma excelente história com muita identidade em que nada se assemelha a obras do gênero, mas que trazem reflexões importantíssimas e cada vez mais próximas sobre o futuro de nossa sociedade, o que muito nos preocupa.

Hannah Elizabeth Payne, tendo sido considerada culpada do crime de assassinato em segundo grau, eu a condeno, por isso, a passar pela melacromagem, pelo Departamento de Justiça Criminal do Texas, a passar trinta dias na ala Cromo da Prisão Estadual Crawford e a permanecer Vermelha por um período de dezesseis anos.

Na narrativa criada por Jordan, o estado não é mais laico e nos deparamos com uma América totalmente teocrática em que os criminosos não são julgados e mantidos em cárcere privado de acordo com a gravidade de seus crimes; Agora passam por um processo de modificação genético chamado de Cromagem em que sua pele é pigmentada de acordo com seu delito e novamente  liberados para assim receberem o julgamento em que a população acredita ser o mais adequado, geralmente a morte. Denominados como Cromos, os condenados por furto e roubo recebem o pigmento amarelo, para os pedófilos e estupradores, a cor azul, enquanto que para os assassinos - a categoria mais grave - recebem o pigmento vermelho em suas peles. Após o procedimento, todos os Cromos passam por um período de 30 dias em que ficam trancafiados em uma cela e todas suas ações são gravadas e transmitidas em uma espécie de reality show para toda a população. Decorridos os 30 dias, os Cromos são novamente inseridos na sociedade e irão se manter com os pigmentos coloridos durante o período determinado no momento de seus julgamentos, vivendo sob fortes restrições em que não podem sair das cidades e precisam se apresentar aos centros de cromagem em períodos determinados para a renovação dos pigmentos. Os Cromos então tornam-se alvos de uma sociedade conservadora e autoritária e em meio a esse cenário altamente segregatório, a taxa de morte dos Cromos é altíssima e muitos deles não conseguem chegar aos finais de suas penas, sendo perseguidos por grupos de extermínio ou fanáticos religiosos. Hannah Payne acorda numa cela fria e escura, como uma Vermelha. Após seu julgamento, ela foi acusada a assassinato por abortar seu filho, fruto de um relacionamento extraconjugal com um poderoso líder religioso. Hannah opta por proteger a identidade do homem, já que nutre uma forte paixão por ele e uma revelação como essa, iria por fim a sua carreira meteórica e o casamento feliz em que se encontra. Ela então é condenada a se tornar uma Vermelha e precisa lidar com a rejeição de sua família e, principalmente de sua mãe, além de se encontrar sob julgamento de uma sociedade que acredita que o aborto é a pior afronta contra as vontades de Deus. 

Após o período em que é confinada e exibida como um animal para todo mundo assistir, Hannah é liberada e não possui qualquer perspectiva de futuro: Os Cromos são tratados como a parte mais suja da sociedade e não conseguem encontrar trabalhos formais, moradias ou possuir qualquer outra condição minimamente aceitável de vida. Muitos Cromos procuram os centros de reabilitação em que são torturados e obrigados a reviverem seus traumas enquanto buscam a redenção perante a Deus. Sem saber muito para onde ir e com medo de encontrar membros do Punho de Cristo - um grupo extremista que caça e mata Cromos pela rua - Hannah dá entrada a um desses centros de redenção e lá começa seu verdadeiro inferno particular. É impossível descrever em palavras o quão mal me senti nesse momento da leitura, principalmente por tudo que a protagonista precisou enfrentar para que Deus a perdoasse por ter assassinado uma alma inocente, como é repetido incansavelmente para ela. A leitura é muito repulsiva e eu me via com um forte sentimento de revolta e asco, no entanto, esse havia sido a única maneira encontrada por Hannah para a redenção, visto que muitas Cromos, quando não eram mortas, eram sequestradas e serviam como escravas sexuais, levadas a exaustão e abusadas de todas as formas, até sua morte. 

A partir desse ponto, não posso dizer muito mais a respeito da trajetória de Hannah em busca de salvação. Acredito que seriam muitos spoilers e esse é um livro em que se é necessário ser sentido e lido. Quando Ela Acordou, assim como todas as grandes distopias, trazem muitos pontos de reflexão acerca da sociedade. No caso de Hannah, a autora explora muito sobre como a sociedade patriarcal em que ela vive - e que, convenhamos, não é tão diferente assim da nossa própria - exerce total controle sobre seu corpo e suas decisões. Os conflitos religiosos envolvendo aborto e traição também são amplamente explorados e debatidos e a maneira com que Jordan consegue incluir esses temas em meio a essa narrativa tão densa é louvável. Ao contrário das inúmeras distopias, Hannah não se torna o rosto da revolução e irá encontrar uma maneira para a destruição desse sistema opressor e injusto. Muito pelo contrário: O livro apresenta uma jornada pessoal e particular por aceitação e, principalmente, perdão próprio. A narrativa de Hillary é muito impressionante e ainda que o livro possua uma temática difícil de ser engolida, foi incrível a rapidez com que fiz a leitura.

As costas da mão dele bateram com força do lado do seu rosto, derrubando-a no chão. Alguém gritou. O que Hannah ouvia com mais nitidez foram as batidas altas, teimosas do seu coração. Isso lhe lembrava que estava viva, que era ela própria.

No meio de tantos pontos positivos, eu realmente não curti o final, aberto e interpretativo. Eu entendo que muitas obras são relativas e que cada leitor consegue interpretar o final a sua própria maneira de acordo com suas vivências e experiências, mas não curti a maneira com que ela finaliza a história e muito menos a maneira com que Hannah se mantém tão fiel a um homem que só prejudicou sua vida. Foi uma pequena falha - particularmente falando - mas que ainda sim irei indicá-lo para todos os meus amigos pois acredito ser uma leitura muito importante e atual, ainda que num primeiro momento, ela pode soar esquisita e distante da nossa realidade. 


Nota: 4,0 / 5,0 


Espero que tenham gostado da resenha de hoje e que levem essa dica em consideração; livros como esse tornam-se cada vez mais necessários nos dias de hoje - independente do que você acredita.

Nos vemos semana que vem com mais uma resenha.

Até a próxima.



Postar um comentário

0 Comentários